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Contra ou a favor?

23/04/2018 00:16:07

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Há muitos anos, quando eu não entendia nada de jornalismo, apesar de ainda hoje eu nada entender deste ofício, minha então namorada, numa dessas discussões quaisquer, ocorridas por ninharias, usou uma divisa jornalística para me emparedar. Ela me disse: “Edson, contra fatos não há argumentos”. E eu, diante desse fato, nada pude argumentar. Num certo dia a discussão foi mais dura, brigamos pra valer e o romance acabou. Mas a sentença – “contra fatos não há argumentos” – jamais me deixou. Eu a usei em muitas outras oportunidades – não contra namoradas – para enquadrar pessoas em debates onde os fatos que eu apresentava eram sólidos.

Quando cursei jornalismo, essa ideia de que contra fatos não há argumentos se solidificou, só que tudo é tão mutável. Eu gostava de utilizar essa divisa, que me parecia imbatível, sobretudo quando o debate trazia à tona questões envolvendo políticos. Depois de atuar, embora mais nos bastidores, e mais ainda na condição de comunicador social, em alguns meandros da vida política, percebi que é possível argumentar contra todo e qualquer fato. Comecei a compreender que toda verdade é contestável mesmo sendo a mais incontestável possível.

(Antes de prosseguir, quero esclarecer isso de “meandros da vida política”: trabalhei em campanhas do PFL, que virou DEM, e depois os principais nomes desse partido criaram o PSD. Portanto, participei de campanhas eleitorais de Raimundo Colombo e Antonio Ceron, entre outros. Isso se deu de 1998 a 2003. Depois, por questões que, num outro momento poderei explicar, integrei a equipe de Elizeu Mattos, do PMDB, a partir de maio de 2003, na estruturação da SDR Lages, que depois virou ADR. Desde então atuei em campanhas do partido, inclusive na que definiu as eleições de Colombo ao Senado e ao Governo do Estado. Nunca me filiei a partido algum. Se fosse me filiar, seria, na era romântica do PT, ao PT de Lula, quando eu acreditava no Lula. Não tenho partido nem político de estimação. Sou um profissional que presta serviços e é amigo de todos os políticos, mas que discorda de muita coisa em relação a todos.)

Hoje vejo pessoas defendendo situações supostamente indefensáveis. Supostamente indefensáveis, porque é possível argumentar a favor, mesmo os fatos sendo contrários. Porque quem atua como comunicador social, num determinado estágio da vida se torna especialista em distorcer fatos, em recriar fatos, em desmontar e dar nova estrutura aos fatos. Basta puxar o caso por outro ângulo, pincelar alguns argumentos bem pensados, bem ponderados, colocar alguns pontos de interrogação, outros de exclamação, algumas reticencias...

É incrível o que uma “cabeça pensante” é capaz de criar, de “idear”, é incrível como “uma mente brilhante”, e nem precisar brilhar tanto assim, tem capacidade para distorcer, refazer, remendar, defender... É esta também uma das artes da advocacia. Não é à toa que os jornalistas de antigamente eram quase todos advogados... (Ah!, as reticencias... Dizem tanto sem nada dizer...) Leio as notícias locais em alguns veículos de comunicação e penso: “Uau! Se eu não soubesse a verdade sobre essa pessoa”, ou, “sobre essa história, esse texto me convenceria”. E às vezes, além do texto, há fotos que “comprovam” o que diz o articulador.

Convecem a outros, não a mim. Ou, não mais a mim. Já fui convencido pelo poder das palavras bem postas, bem colocadas, bem “palavreadas”. Mas agora sei como tudo na comunicação social é construído, para o bem ou para o mal, então, quando alguém grita certas verdades, mesmo que minimamente, sei como descobrir se é verdade ou pseudoverdade. E quase tudo é pseudoverdade. Quando gritam por aí as “virtudes” de uns e outros, basta olharmos os portais de transparência dos governos para ver quem aparece lá... Mas há outros “mecanismos” que fazem a engrenagem girar...

Lembro-me do colunista político do O Momento, Eron J. Silva, que, em uma das nossas conversas, na redação do jornal, há muitos anos, me contou uma piada sobre um jornalista que procurava trabalho – e essa piada fecha minha reflexão sobre a questão “fatos e argumentos”. O jornalista entrou num jornal e pediu emprego. O dono do jornal mandou: “Faça uma matéria a respeito da vida de Jesus Cristo.” E o jornalista respondeu perguntando: “Contra ou a favor?”

 
 
TAGS: OnNews, Colunistas, Opinião, Edson Marcondes
CATEGORIA: COLUNISTAS
Fonte:
EDSON MARCONDES
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EDSON MARCONDES
jornalista, aprendiz de poeta e sonhador

 

Maldizer político e social

 

Literatura da vida

 

Em nome da ética, do respeito e da responsabilidade

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