Inpe receberá R$ 147,6 milhões para usar inteligência artificial no combate ao desmatamento
Projeto SIM-Biomas prevê acelerar alertas ambientais, ampliar o monitoramento para todos os biomas brasileiros e aprimorar a identificação de queimadas e áreas sob risco de degradação.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) receberá R$ 147,6 milhões do Fundo Amazônia para desenvolver tecnologias de inteligência artificial voltadas ao monitoramento do desmatamento no Brasil. O projeto SIM-Biomas pretende acelerar a identificação de áreas desmatadas, aprimorar o mapeamento de queimadas e antecipar regiões com maior risco de perda de vegetação nativa.
A iniciativa foi anunciada na sexta-feira (16), mesma data em que o governo federal divulgou novos dados sobre o desmatamento na Amazônia, que registrou o menor índice desde 1988, segundo as informações divulgadas.
Atualmente, o Inpe utiliza dois sistemas principais para acompanhar a perda de vegetação. O Prodes calcula a taxa anual de desmatamento com maior precisão, enquanto o Deter emite alertas mais frequentes para orientar as ações de fiscalização.
Com o SIM-Biomas, a proposta é integrar as duas ferramentas, combinando a precisão do Prodes com a agilidade do Deter. A expectativa é reduzir o intervalo entre a identificação de mudanças na vegetação e o envio de informações aos órgãos responsáveis pelo controle ambiental.
Monitoramento será ampliado para todos os biomas
O projeto prevê expandir os alertas diários de desmatamento para a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa. Atualmente, o Deter monitora a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal.
Outra meta é aprimorar o mapeamento de áreas queimadas. A resolução dos mapas, que em parte do território ainda utiliza áreas de um quilômetro de lado, deverá chegar a 30 metros em todos os biomas. A mudança permitirá identificar com mais precisão os locais atingidos pelo fogo e dimensionar a extensão das áreas afetadas.
O Inpe também pretende desenvolver ferramentas capazes de indicar onde o desmatamento e a degradação ambiental têm maior probabilidade de ocorrer nas semanas e nos meses seguintes.
Para isso, o sistema deverá cruzar imagens de satélite com informações fundiárias, socioeconômicas e climáticas. As análises poderão considerar bacias hidrográficas e terras indígenas, enquanto ferramentas de simulação ajudarão a projetar diferentes cenários ambientais.
Como a inteligência artificial será utilizada
A tecnologia será aplicada à análise de imagens de satélite. Por meio de técnicas de aprendizado de máquina, os algoritmos serão treinados para reconhecer padrões associados ao corte de árvores, à degradação da vegetação e às marcas deixadas por incêndios.
A automação deverá acelerar a interpretação das imagens e a geração de alertas, permitindo que o instituto produza informações com maior frequência.
Segundo o diretor do Inpe, Antônio Miguel Vieira Monteiro, os softwares e métodos desenvolvidos pelo projeto serão disponibilizados de forma aberta. Isso permitirá que outras instituições utilizem e verifiquem as tecnologias.
Projeto prevê medição de gases de efeito estufa
O investimento também contempla o aprimoramento das estimativas de emissões de gases de efeito estufa na Amazônia. Sobrevoos deverão coletar amostras do ar para medir dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O) e monóxido de carbono (CO).
Os resultados serão comparados às estimativas calculadas a partir das mudanças na vegetação, com o objetivo de reduzir incertezas nos dados ambientais.
Também estão previstos mapas atualizados de biomassa e carbono da Amazônia e do Cerrado. As informações poderão contribuir para os inventários nacionais de emissões e os relatórios apresentados pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris.
Outra entrega será a plataforma pública TerraBrasilis++, que deverá reunir mapas, alertas e indicadores ambientais. O sistema prevê uma Sala de Situação ampliada e uma Sala de Cenários, destinada à elaboração de projeções futuras.
O projeto inclui ainda a ampliação da capacidade de processamento e armazenamento de dados do instituto e melhorias no Brazil Data Cube, infraestrutura utilizada para organizar e analisar imagens de satélite.
Investimento ocorre após período de restrições orçamentárias
O aporte anunciado chega após anos de dificuldades financeiras enfrentadas pelo Inpe. Em 2021, o instituto recebeu R$ 79 milhões, o menor orçamento da série histórica iniciada em 2006. Naquele período, chegou a enfrentar o risco de interromper atividades por falta de recursos para despesas básicas.
Em 2019, o instituto também foi alvo de críticas do então presidente Jair Bolsonaro, que questionou os dados de desmatamento da Amazônia. Na ocasião, o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi demitido após defender publicamente a credibilidade dos levantamentos.
A recomposição orçamentária começou em 2023, quando os recursos chegaram a R$ 129 milhões. O orçamento caiu para R$ 120 milhões em 2024 e R$ 102 milhões em 2025, conforme os dados apresentados no levantamento original.
Os R$ 147,6 milhões destinados ao SIM-Biomas, porém, não integram o orçamento regular do instituto. O recurso será repassado como apoio não reembolsável do Fundo Amazônia, mecanismo voltado ao financiamento de ações de prevenção e combate ao desmatamento e de promoção do uso sustentável da floresta.
O fundo é administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Desde sua criação, acumulou R$ 5,3 bilhões em doações e aprovou 159 projetos, com atuação em três de cada quatro municípios da Amazônia Legal.
Apesar dos avanços tecnológicos previstos, os resultados do SIM-Biomas também dependerão da capacidade dos órgãos ambientais de transformar os alertas em ações efetivas de fiscalização e prevenção.
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